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“Esperamos investir 200 a 250 milhões nos próximos quatro anos”

Esperamos investir 200 a 250 milhões nos próximos quatro anos


Rodolfo Reis

 

Responsável acredita que o país continua no radar dos investidores estrangeiros apesar das alterações ao regime dos vistos ‘gold’ e destaca a oferta de habitação a preços acessíveis e a sustentabilidade como os principais problemas a debater em Portugal.

A crise provocada pela Covid-19 não se fez sentir na promotora belga Krest. Em entrevista ao Jornal Económico (JE), o CEO Claude Kandiyoti fala numa resposta positiva dos investidores portugueses e já tem mais projetos para desenvolver em Portugal.

 

A pandemia afetou o vosso negócio?

Na realidade não nos afetou de todo. Os efeitos da pandemia são na verdade um boom no mercado neste momento, mas não é claro se é ou não uma ‘bolha’ imobiliária. Neste projeto de Miraflores, por exemplo, durante a pandemia, as pessoas ligavam-nos de manhã à tarde a perguntar sobre os apartamentos e nunca vendemos tanto como nessa altura até agora, e 70% das nossas vendas foram a clientes portugueses. Desde que houve a reabertura ficou tudo calmo, foi este o feito da pandemia.

 

Tem uma explicação para isso?

Como as pessoas estão em casa, não pararam de trabalhar e precisam de respirar e pensar, porque não podiam fazer mais nada durante o confinamento. Então começaram a procurar novos espaços para viver e trabalhar.

 

Com a crise económica que afeta o país e o desemprego, surpreendeu-o esta capacidade de investir dos portugueses?

Quando a pandemia começou surgiram várias questões, e tal como em qualquer crise não é possível prever o futuro, temos de viver dia após dia. Não fiquei surpreendido, mas afetado pela positiva devido à forma como muitos portugueses perceberam a nova realidade que vivemos e que esta foi a altura certa para investirem.

 

Foi um sinal de confiança do mercado português, apesar da pandemia?

Neste momento, no projeto de Miraflores já vendemos 105 apartamentos e temos 120 para vender. No Algarve temos dois projetos, um de 25 apartamentos, onde 16 já estão vendidos, e um outro, o Horizon, que fica em Forte Novo, que engloba 129 apartamentos, onde apesar de existir procura ainda não estamos a vender porque aguardamos o licenciamento, que espero seja em junho para arrancarmos a construção em setembro. Vejo o mercado a ‘ferver’ porque existe muita falta de oferta no mercado português desde o nível baixo ao médio e alto.

 

Portugal mantém-se no radar dos investidores estrangeiros?

Eles vão voltar, a questão é que com as alterações ao regime dos golden visa em Lisboa e no Porto vai haver uma mudança, porque as pessoas não vêm para Portugal por causa dos golden visa, mas sim pela qualidade de vida.

 

Que outros projetos estão em ‘pipeline’? Temos alguns projetos que ainda não podemos divulgar, mas que ficarão localizados na Grande Lisboa e um deles no Porto. Já temos os acordos assinados, mas ainda há alguns processos administrativos que têm de ser ultrapassados. São projetos importantes e onde esperamos investir entre 200 a 250 milhões de euros nos próximos quatro anos.

 

As restrições de viagens e o medo da pandemia justificam este crescimento do investidor português?

Acredito mesmo que as pessoas precisam de mudar de ares e também porque não sabem onde podem investir o seu dinheiro. Não podem entrar no mercado das ações porque é muito elevado, e deixar o dinheiro no banco pode gerar um interesse negativo.

 

Preocupa-o a alteração ao regime dos vistos ‘gold’?

A nós não nos afeta porque não trabalhamos com golden visa, mas vai afetar o segmento alto, porque representa uma grande parte desse mercado. Existem dois problemas que queremos abordar agora: a problemática da habitação, criando habitações a preços mais acessíveis. A questão é: queremos ou não entrar no programa do Governo ou municipal? Não tenho a certeza devido às restrições por entrar num desses programas. Tenho algumas dúvidas sobre a real capacidade das autoridades locais em trabalhar com projetos público-privados, mas isso não significa que não queira fazer parte dessa solução.

O segundo problema é integrar os critérios ESG [Environmental, Social and Governance], ou seja reduzir as emissões de gases, estar atento à pegada energética e climática que a nossa construção vai trazer. Vamos esquecer o problema do licenciamento. Digamos que quero fazer um projeto mais sustentável. Vão logo dizer-nos que vai ser mais caro e as autoridades locais não perguntam por projetos mais sustentáveis. Isto é mais um conceito do que um regulamento e acredito que temos de mudar, não os governos ou regulamentos, não é essa a nossa função, mas sim mudar a responsabilidade cívica para criar projetos que respondam aos problemas que o mundo enfrenta. E isto requer duas coisas: a primeira é que temos de ter a certeza de que as autoridades locais entendem aquilo que estamos a tentar fazer. A segunda está relacionada com as emissões de gases e as ‘casas verdes’, ou seja as pessoas têm de mudar a sua maneira de viver, seja em apartamentos mais pequenos, mas com terraços maiores, seja usando menos o carro, gastando menos gás e usando mais eletricidade. É um processo que vai levar tempo.

 

Estas mudanças foram provocadas pelo teletrabalho?

Não creio. É algo que tem sido um desafio desde há muito tempo. O projeto de Miraflores é sustentável, mas não tanto como gostaria, porque ainda não existiam alternativas quando comecei a desenvolvê-lo, mas agora queremos empenhar-nos nas boas práticas ESG e, ao mesmo tempo, oferecer a melhor qualidade e preço aos nossos clientes.